Esta matéria tem base no livro “Luiz Gonzaga: O Matuto que Conquistou o Mundo”, do jornalista e escritor Gildson Oliveira. Este era o livro de cabeceira do meu avô que foi presenteado pela minha mãe. Ela recebeu a obra das mãos do autor, quando era estagiária da TV Pernambuco, em 1994, e produzia o programa de entrevistas “Eneas Pelo Direito”. Dedico esta reportagem a minha mãe e maior inspiração, Éden Pereira; ao meu avô, Sebastião Pereira; a Gildson Oliveira, que fez um trabalho impecável; e, claro, ao Rei do Baião, Luiz Gonzaga. Boa leitura!


Nascido em Exu, há mais de 600 km de Recife, Capital pernambucana, Luiz Gonzaga do Nascimento veio ao mundo no dia 13 de dezembro de 1912. Filho de Ana Batista de Jesus (Mãe Santana) e Januário José dos Santos, consertador de fole, Luiz Gonzaga já tinha um destino traçado. De acordo com uma velha cigana: de ser do mundo.
Vindo de uma família pobre, sem eira nem beira, ele viveu grande parte da adolescência em uma casa de barro batido. Apesar das adversidades, Gonzaga já tinha o objetivo de ser artista, de tocar sanfona igual o pai e de colocar o povo para dançar com sua música.
Com 17 anos ele se apaixona e começa a namorar com Nazarena Saraiva Milfon (Nazinha), que pertencia a uma família tradicional de Exu. O pai dela, porém, não aprovou o namoro e disse que Gonzaga era “um tocadorzinho de merda”. Quando descobre isso, ele não leva desaforo para casa, compra uma faca, bebe álcool e vai atrás do coronel, que paga de doido e finge que nada aconteceu.

“E enquanto eu me gabava com meus colegas, ele, Raimundo Olindo, foi procurar Mãe Santana e disse que só não me matara porque eu era filho dela. O resultado dessa valentia foi a maior surra da minha. Com o lombo ardendo do relho, fugi para o mato…”, destaca Luiz Gonzaga em entrevista feita por Gildson Oliveira.
Gonzaga passa cerca de 15 dias escondido, até que decide pegar um trem para Fortaleza e entrar para o Exército. Lá, ele fica aproximadamente 10 anos e como gosta de ressaltar: nunca deu um tiro. No exército, ele deixa de tocar sanfona, e torna-se corneteiro, conhecido como “bico de aço”.
Uma curiosidade é que ele tentou até tocar sanfona no quartel, mas quando foram fazer um teste, ele foi reprovado. “Aí o maestro mandou eu pegar [a sanfona] e disse assim ‘dá aí um mi bemol’. Aí eu me lasquei todo”, conta Luiz Gonzaga em entrevista. .

Depois de servir ao Exército, Gonzaga vai para o Rio de Janeiro. Ele chega na Cidade Maravilhosa com o seu sonho de ser artista ainda forte. No entanto, enfrenta dificuldades e a sanfona vira a sua forma de sustento. No Rio, ele conhece Xavier Pinheiro, o violeiro que mais tarde viraria padrinho e pai adotivo de Luiz Gonzaga Jr. (Gonzaguinha).
Gonzaga seguiu se apresentando com ritmos que estavam na moda, como tangos, valsas, fados e foxtrotes, mas não deu certo. Por quê? Porque a moda não funcionou? Ainda arriscando ir na onda dos outros, ele vai para o programa de Rádio de Silvino e Ari Barbosa e só era motivo de piada. A questão é que estudantes cearenses tiveram que abrir o olho dele: não era preciso fazer o que todo mundo fazia. Então toca alguma coisa da sua terra.
O homem do Nordeste
Quando a gente pensa em Luiz Gonzaga, várias coisas podem ser lembradas, como: São João, música, sanfona, nordeste, baião e a própria cultura. Esses são pilares importantes quando falamos do Rei do Baião, mas vem cá, você sabe pelo o que ele batalhava?
Quando disseram para Gonzaga tocar alguma coisa de sua terra, de certa forma este foi o pontapé para que surgisse uma entidade com influência não somente em Pernambuco, Nordeste ou Brasil. Falo isso, porque como evidenciado no Livro do Jornalista Gildson Oliveira, Luiz Gonzaga foi o Matuto que conquistou o Mundo, tocando em Paris, na França (1955) e outros países da Europa.
Ele fez jus a sua música e andou por este país e certamente descansou feliz. Antes de qualquer ídolo das músicas de protesto da ditadura militar, Luiz Gonzaga do Nascimento falou sobre sua terra. Ele cantou sobre o sertão, a fome, sede, raça, êxodo rural, defesa dos animais e trouxe esperança para o Nordeste como porta-voz de um povo que já fora esquecido, mas que agora tinha vez.

Tocando sanfona, com uma voz de “taquara rachada”, como falado em um dos seus teste à rádio, Gonzaga ajudou na construção de uma identidade nacional e cultural. Ele foi o homem que nasceu no interior, não estudou, mas que até hoje as pessoas aprendem com suas músicas. "A vida do viajante", que Gonzaga teve, não cabe em papel ou internet.
Com coragem, ele conquistou o seu lugar tocando baião (ritmo que o consagrou rei), xote e boiada, além de ter sido um grande divulgador da dança xaxado. Uma curiosidade é que o nome xaxado tem origem do barulho das sandálias arrastando no chão. O ritmo era tido como “dança de cangaceiro”, justamente por Lampião e seu bando tratarem como dança de guerra e entretenimento.
Inclusive, Gonzaga admirava muita as histórias e bravuras de Lampião. Quando pequeno, inclusive, sonhava em conhecer o ídolo que cruzou Exu em direção a Juazeiro do Norte. Inspirado nele, montou o seu figurino, homenageando também o vaqueiro nordestino.

Sanfoneiro do povo e para o povo
Não demorou para que Gonzaga caísse na boca do povo. Cantando histórias e brincando com o público, até parecia que era fácil cantar na frente de multidões. Com sua oralidade, ele criava cenários que, para quem escutava e prestava atenção aos detalhes, talvez fosse o mesmo que ver um filme no cinema.
Em “Respeita Januário”, por exemplo, ele passa a maior parte tocando sanfona e contando a história de quando ele voltou para Exu depois de mais de 10 anos longe de casa. No entanto, ele regressa famoso e com fole de 120 baixos prateado. O problema? Januário, o seu pai, ainda era o maior. Então, “Lui, respeita Januário.”
Quando eu voltei lá no sertão
Eu quis mangar de Januário
Com meu fole prateado
Só de baixo, cento e vinte, botão preto bem juntinho
Como nêgo empareado
Mas antes de fazer bonito de passagem por Granito
Foram logo me dizendo
"De Taboca à Rancharia, de Salgueiro a Bodocó, Januário é o maior
E foi aí que me falou meio zangado o véi Jacó
Lui respeita Januário
Lui respeita Januário
Lui, tu pode ser famoso, mas teu pai é mais tinhoso
E com ele ninguém vai, Lui, Lui
Respeita os oito baixo do teu pai
Respeita os oito baixo do teu pai

Apesar de cantar histórias divertidas, ele também tinha um gênio forte para falar do seu povo e das dificuldades que o nordestino passava. Sobre a seca, que fez muitos saírem das suas terras em busca de condições melhores, Gonzaga cantou "Asa Branca". Composta junto a Humberto Teixeira, esta canção fala do êxodo rural e da dor de deixar tudo para trás. Ela é a música mais reconhecida de sua carreira e guarda nas palavras do velho sanfoneiro frustração, medo do novo e esperança de dias melhores.
Inclusive o nome da música deu origem ao Projeto Asa Branca, que beneficiou diversos municípios de Pernambuco. Além disso, também dá nome a Rodovia Asa Branca que liga Oricuri (PE) a Crato (CE). Uma curiosidade é que Gonzaga também deu de presente cerca de 300 sanfonas para pessoas que tinham a "pinta de sanfoneiro". Talvez com medo de que esta arte sumisse no futuro.
Dando continuidade a história, todo pássaro uma hora volta para o seu ninho. Entre a seca, a dor da partida e a saudade de casa, no Sertão volta a chover. E com a chuva, o nordestino pode regressar, cuidar da plantações e ter a vida de volta. Luiz Gonzaga cantou isso também em "A Volta da Asa Branca".
Aproveitando o tópico musical para dizer que o triângulo, a zabumba e a sanfona, ícones indispensáveis do forró pé serra, foram invenção de Luiz Gonzaga. Quer dizer, os instrumentos já existiam, tá? No entanto, a junção deles é mérito do rei.

Seguindo agora com o hino “A Morte do Vaqueiro”, Gonzaga canta o enterro de um vaqueiro nordestino, que “parte sem deixar um tostão” e que uma hora outra tem o seu nome esquecido nas quebradas do sertão. Lembro de quando pequeno, minha mãe me botar para dormir cantando o refrão “tengo, lengo, tengo, lengo, tengo, lengo, tengo”.
Outro ponto interessante do repertório são as músicas ecológicas. Isso mesmo o que você leu: ecológicas. Gonzaga tem uma música chamada de “O Jumento é Nosso Irmão”, em que ele fala de forma leve e descontraída sobre a importância que este animal desempenha para a sociedade, mas que nós, seres humanos, não fazíamos nada de bom a favor dele, a não ser dar mais trabalho e colocar apelidos.
Esta canção surge em um período onde a carne de jumento estava sendo comercializada em frigoríficos. Como forma de protesto e ressaltando a relevância deste animal, Gonzaga canta e consegue chegar nas pessoas e políticos, despertando interesse também em pesquisadores, sociólogos e economistas.
Aproveitando que está chegando a melhor época do ano, é preciso dizer que Luiz Gonzaga gostava de por o povo pra dançar. Quem é que pensa no São João e não se lembra de um "Vem Morena" pros meus braços? Quem nunca dançou "Numa Sala de reboco", "São João na Roça", "Olha pro Céu" ou cantou "Sabiá", "Pagode Russo" e tantos outros clássicos?
A reposta é simples: não existe São João sem Gonzaga. Ele é a cara dessa festa.

Rádio, música e cabeludos
Inegavelmente o que fez Luiz Gonzaga do Nascimento ter este “bomm” na música, foi o Rádio. Foi nas rádios do Rio de Janeiro que ele foi ganhando o público. Em 14 de março de 1941, gravou seus dois primeiros discos na qualidade de sanfoneiro solista. Cinco anos depois, Gonzaga já tinha lugar certo nas rádios cariocas, participando de programas e fazendo shows em teatros.
O interessante é que Gonzaga não gostava da sua própria voz, mas Átila Nunes, que tinha um programa, convidou o sanfoneiro para cantar. O povo gostou e até cartinhas mandavam para o "véi macho". Isso serviu como incentivo para ele tentar o disco, com direção da RCA, “Dança, Mariquinha”. No entanto, foi com “Mula Preta” (1943), que Seu Luiz alcançou o sucesso como cantor.

Uma curiosidade é que muitas vezes Gonzaga é descrito como “Lua”. Este apelido veio de Paulo Gracindo, companheiro de trabalho na Rádio Nacional, que viu que o rosto de Gonzaga era meio arredondado e por isso deu esse nome. Seu Lua foi apelido que pegou, né?
A partir daí, o filho de Mãe Santana só foi crescendo cada vez mais. No entanto, ele não trabalhava sozinho. Na trajetória de Seu Lua, passaram diversos compositores, a exemplo de Miguel Lima, Humberto Teixeira, Zé Dantas, João Silva entre outros. Humberto Teixeira, inclusive, foi eleito deputado federal, em 1954.
O auge de Luiz Gonzaga durou cerca de 20 anos. A fama era tanto, que quando se mudou para São Paulo, teve que cantar em cima de caminhões e marquises de edifícios. Os ingressos se esgotavam, mas Seu Lua queria que todo mundo pudesse cantar junto dele, por isso fazia esses shows públicos.

O declínio de sua carreira veio no final da década de 50. Com as guitarras elétricas e os cabeludos da jovem guarda, pouco a pouco foram esquecendo da sanfona, triângulo e zabumba. Na música "Xote dos Cabeludos", Gonzaga desabafa sobre essa mudança urbana, em que os jovens passaram a adotar o cabelo grande e outros estilos que não condiziam, por exemplo, com a cultura do sertanejo.
A volta triunfal do Rei aconteceu em 72 no Teatro Teresa Rachel, no Rio de Janeiro. Seu Lua lançou um disco cantando as músicas de Gilberto Gil, Geraldo Vandré, Caetano Veloso, Edu Lobo e Capinam, além de "Ovo de Codorna", de Severino Ramos.
É importante também destacar que com esse regresso, o Rei do Baião cantou com grandes nomes da época que seguem em evidência no presente. São eles: Elba Ramalho, Fagner, Zé Ramalho, Alceu Valença, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Ivete Sangalo, Gal Costa, Gonzaguinha, entre outros. Em toda a sua carreira, Luiz Gonzaga gravou 1.063 músicas.
Sanfoneiro apaixonado
Sobre amores, Luiz Gonzaga teve muitos. Ele rodou o país e inegavelmente conheceu muitas mulheres. No entanto, o primeiro e grande amor de sua vida, foi ainda na adolescência: Nazarena Saraiva Milfon (Nazinha). Depois de Gonzaga levar aquela surra da mãe e fugir para o mato, Nazinha ainda se encontrou com ele escondido num sítio, no cariri cearense. Mesmo assim, Seu Lua entra no exército, faz a vida no Rio e vira “Luiz Gonzaga”.
Quando ele regressa para Exu, talvez ainda com esperança de ver o seu amor juvenil, pergunta sobre ela e tem resposta de que seguiu a vida, casou-se e foi morar no Mato Grosso do Sul. Mas calma, querido leitor. A grande reviravolta desta história é que em outubro de 1980, Luiz Gonzaga foi se apresentar no Ginásio Ursa de Campo Grande.
A Neta de Nazinha descobre isso, e sabendo da história de amor, liga para Seu Luiz e os dois marcam de fazer o reencontro. No show, Gonzaga fala sobre o seu primeiro amor e se dirige para a plateia. “Vou chamar Nazarena para subir aqui, porque sua neta me prometeu trazê-la. Nazarena, se você está aqui, suba até o palco!”

O resultado foi o óbvio: muita emoção. Os dois choraram e no dia seguinte marcaram um almoço na casa do filho dela. Lamentaram que a pobreza e a pele negra de Gonzaga foi motivo da proibição do namoro dos dois. Apesar disso, eles se tornaram grandes amigos até a morte de Seu Lua.
Outro amor impactante foi Odaléia Guedes dos Santos, mãe de Gonzaguinha. Ela era cantora e bailarina profissional do coro de Ataulfo Alves. Gonzaga ficou casado cinco anos com ela e existe todas essas contradições de que Gonzaguinha não era filho de Gonzaga, justamente pelo Rei do Baião ser supostamente infertil.

Odaléia morreu em 1952 de tuberculose, quando Gonzaguinha tinha apenas cinco anos. Mesmo assim, antes da morte da mãe, ele já morava com o casal baiano Henrique Xavier (violeiro que Gonzaga conheceu quando chegou no Rio) e Dina Pinheiro, sua mãe do coração. Gonzaguinha morou 15 anos com os “pais adotivos”, até que decidiu "Com a perna no mundo” ir puntar Luiz Gonzaga.
Em 1947, quando já estava separado de Odaléia, Gonzaga conhece a pernambucana de Gravatá Helena Neves Cavalcante. Após Mãe Santana aprovar, em 1948 os dois se casam. Eles ficaram juntos cerca de 40 anos, mas terminou que o fogo da paixão foi apagando e o casal se separou. De acordo com relatos de familiares, no livro de Gildson Oliveira, Luiz e Helena não se davam muito bem. Mesmo assim, ela queria ser mãe e os dois adotaram uma criança, chamada de Rosinha Gonzaga.

A "Madame do Baião", era uma mulher inteligente, que se dedicou ao lar quando casou com Seu Lua. Era ela quem cuidava das finanças do marido. Inclusive, um fato que impactou diretamente na ligação entre Gonzaga e Gonzaguinha, é que ela não gostava do filho do marido. Por isso que ele só foi morar com o pai aos 15 anos.
O principal motivo do termino, além do cansaço de uma relação amorosa que virou apenas rotina, foi Maria Edelzuíta Rabelo, a última mulher de Luiz de Gonzaga. Natural de São José do Egito, no Sertão de Pernambuco, Edelzuíta conheceu Gonzaga em 1968, em Caruaru. Eles se apaixonaram logo de cara e mantiveram o relacionamento no anonimato durante 13 anos. Foi somente em 1988 que ele assumiu publicamente a companheira.

Foi "Zuíta", como era chamada por ele, que viveu com Gonzaga até a morte do Rei do Baião no dia 2 de agosto de 1989. Ela talvez tenha sido uma das figuras mais importantes na sua trajetória, ainda que vivendo apenas dois anos junto do mesmo. Interessante destacar que Edulzuíta era quem sustentava o Rei do Baião. "Mas como?" você pode perguntar, visto que ele fez shows por todo o Brasil e deveria ser rico.
A questão é que o verdadeiro amor de Luiz Gonzaga foi o seu povo. A maior parte do dinheiro que ele ganhava nos shows era destinada para Exu, instituições de caridade e para a Asa Branca. Teve caso, inclusive, dele trocar o dinheiro que receberia da apresentação por comida, para que fosse entregado a que precisasse. Além disso, ele gostava de comprar sanfonas e enviar para Exu. O matuto era apaixonado pelo Nordeste.

Inclusive, junto do ex-governador de Pernambuco, Marco Maciel, e ao lado de Dom Avelar, ele teve uma participação ativa para levar paz a Exu. Na sua terra natal estavam tendo muitas brigas políticas entre famílias e ninguém fazia nada. Por coincidência do destino, depois de um show em Belo Horizonte, em 81, Gonzaga percebeu que o vice-presidente da República, Aureliano Chaves, estava hospedado no mesmo hotel que ele.
Com o seu jeitinho, conversou com Aureliano Chaves, pediu que ajudasse sua terra e oito dias depois do encontro, o vice-presidente decretou intervenção em Exu. Gonzaga aproveita e vai simbora comemorar a vitória em Exu.

A morte do Rei do Baião
Quando Luiz Gonzaga foi fazer a sua última entrevista da vida, com Gildson Oliveira, ele já se encontrava debilitado e sentado numa cadeira de rodas. Doenças atingem pessoas independente de riqueza, gênero, orientação sexual, religião ou raça. Talvez nisso, a vida seja democrática. Luiz Gonzaga, teve câncer de prostata e por conta disso várias outras complicações.
A notícia da doença veio por volta de 1987, pelo urologista Amauri Medeiros. Foram feitas radiografias, exames e uma biopcia, no Hospital Albert Sabin, Ilha do Leite, Recife. Foi então constatado que Gonzaga tinha um carcinoma de próstata.

Mesmo doente, Luiz Gonzaga, fazia viagens para o Rio de Janeiro e chegou a gravar ainda três discos. Um fato interessante é que o doutor Amauri e Gonzaga nutriram uma forte amizade.
A última apresentação do Rei do Baião aconteceu no dia 6 de junho de 1989, no Teatro Guararapes, no Centro de Convenções, em Olinda. Naquele momento, ele pode realizar o sonho de tocar em um espaço que era antes destinado cantores da suposta elite.
Gonzaga chega de cadeira de rodas, pálido e visivelmente fraco. Ele estava acompanhado de Zuíta e ao contrário da expectativa de muitos, ele não tinha forças direito para cantar. Mesmo assim, deu um show!
Nessa época, Seu Luiz já estava com pneumonia. Mesmo assim teve forças para se levantar diante do seu povo. Quando ficou internado durante 42 dias, no Hospital Santa Joana, dos corredores era possível escutar não gritos de dor, choro ou lamentações. De Gonzaga, apenas música e aboio. Da mesma forma que ele transformou o sofrimento de sua gente em poesia, a sua dor virou canção. Em 2 de agosto de 1989, Luiz Gonzaga do Nascimento dormiu e não acordou mais.
O velório de Gonzaga aconteceu no dia seguinte, e ele foi levado para o Hospital Oswaldo Cruz, para que seu corpo fosse colocado no Formol. A partir daí, o viajante estava pronto para mais uma aventura. Em Recife, seu corpo ficou exposto na Assembleia Legislativa, no dia 3, mas depois seguiu viagem para o Aeroporto dos Guararapes, em direção a Juazeiro do Norte, Ceará.

Milhares de pessoas acompanharam o caixão do Rei do Baião e uma comoção imensa móvel não apenas Recife, mas todo o Brasil. Aplausos, choros e uma multidão em coro gritando "hei, hei, hei, Luiz é nosso Rei". A ida para Juazeiro do Norte veio do desejo de Seu Luiz em pedir a benção ao Padre Ciço.
Chegando em Juazeiro, a dificuldade foi entrar na cidade. Muitas pessoas queria ver o Rei do Baião. Estimasse, inclusive, que o sepultamento de Seu Lua arrastou mais gente que o do padre Cícero. A cidade estava, praticamente em feriado: lojas fechadas e até repartições públicas. Emissoras de Rádio também transmitiam momento a momento. De fato, uma Copa do Mundo.

Gonzaguinha, que acompanhou o velório do começo ao fim, chegou a cogitar não entrar na cidade por causa da demora, mas o o pessoal protestou. "Tudo bem, vamos entrar na cidade. Se o povo quer, que podemos fazer?", sinalizou.
Depois de muito rodar, chegaram no Cemitério São Raimundo, em Exu. Antes do caixão descer à sepultura, Gonzaguinha, Dominguinhos e Alcimar Monteiro cantaram "Asa Branca". Entre sanfonas, canções e choros, Luiz Gonzaga do Nascimento voltou para o sertão. O Matuto, regressou depois de rodar o mundo, agora podia descansar
De pai para filho
Como já falado antes, Gonzaguinha não tinha tanta proximidade do pai. Pelo fato de ser filho do Rei do Baião, ele viveu a infância e parte da adolescência na sombra do nome Gonzaga, mas sem a devida presença paterna. Quando ele sai da casa de Dina Pinheiro e Henrique Xavier e vai morar com Seu Lua, eles não se dão muito bem.
De personalidade forte, rebelde, contestadora, mas ao mesmo tempo tímida, Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior fez seu nome. Tal qual o pai, ele virou cantor e cresceu no ramo musical e conta com clássicos, como "O Que É, o Que É?", "Sangrando", "Lindo Lago do Amor" e tantas outras canções.
A questão é que eles realmente foram ficar próximos lá por volta da década de 80. A reconciliação dos dois tem várias pontas soltas: desde Fagner dizendo que foi em uma gravação de um disco em que ambos se encontraram, ou do filme "Gonzaga: de Pai para Filho", que conta que foi em um encontro em Exu. Penso eu que na verdade partiu da iniciativa de ambos, de deixar para trás o passado e viver o presente juntos.
Dito isso, a reconciliação dos Gonzagas deu origem a turnê "Vida do Viajante", em 1981. Pai e filho, Gonzaga e Gonzaguinha dividiram palco. Quem diria, né? No entanto, ainda em 1980, eles puderam cantar sobre a vida do viajante, que de certa forma é a jornada que os unia.
Muito importante dizer que quando Luiz Gonzaga recebeu o diagnóstico de câncer, Luizinho, como era chamado também, cuidou do pai. No hospital, Gonzaguinha já tinha ponto marcado e a morte do Rei do Baião abalou, mas não o derrubou. Muito pelo contrário, depois que Seu Lua morreu, Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior queria homenagear o pai.
Ele foi responsável pela inauguração da primeira fase do Museu Gonzagão, deu início ao projeto do Parque Asa Branca e correu atrás de deixar o nome do pai vivo. Para o aniversário de morte de Luiz Gonzaga, ele estava preparando o Projeto Gonzagão. O objetivo era organizar duas grandes festas, uma em Exu e outra em Recife.
No entanto, ele não pôde realizar o seu desejo. Em 29 de abril de 1991, menos de dois anos após a morte do pai, o cantor sofreu um acidente de carro, colidindo com um caminhão, e morreu aos 45 anos. Ainda assim, ele deu continuidade ao legado do pai e junto mesmo segue vivo na música, nas quebradas do Sertão e no coração do povo nordestino.
"Se pudesse faria o Museu do meu pai em cada lugar do Brasil. Mas, tudo devagar, sem pressa. O meu desejo é que este projeto não pronto nunca; que a gente sempre encontre uma nova coisa para fazer, provando que Gonzagão é o povo, é o Sertão" - Gonzaguinha.

Que matéria massa, realmente emocionante relembrar a história dessa lenda, e descobrir tantas coisas novas!
História muito importante. Muitas coisas que eu não sabia inclusive, rei do baião sempre será lembrado!
Reportagem muito interessante e muito bem escrita! Adorei <3