
Que Pernambuco respira arte, isso é inegável. Temos música, dança, cinema e uma cultura vasta já consolidada. Aqui, encontrámos atividades até na noite. Seja em bares, botequins e pega bebos espalhados por todo estado, principalmente no Recife. Mas vêm cá: você sabia que a boemia está em crise?
Para quem não conhece, a boemia é o modo de vida da pessoa que não segue regras, que é livre e gosta de se divertir e de beber com os amigos (segundo o Dicionário Online de português). Aqui no Recife a gente conhece como “raparigagem”. De acordo com dados de 2023 do Relatório Covitel, a vida noturna começou a mudar na geração Z. Isso se deve a Pandemia da Covid-19, em que jovens (entre 18 e 24 anos) optaram por diminuir o consumo de bebidas alcoólicas.
Outro ponto é que a população brasileira adotou uma vida em movimento. Em uma pesquisa feita pelo DataFolha, cerca de metade dos brasileiros (53%), com idades entre 16 anos ou mais, costuma praticar atividades físicas no dia a dia. Em Pernambuco, segundo a Associação Brasileira de Organizadores de Corridas de Rua e Esportes Outdoor, o número de corridas de rua organizadas subiu 93% em 2025. Em resumo, a maior parte das pessoas trocou o álcool pelo pré-treino.

No entanto, é fato que esse desaparecimento da vida noturna e sumiço dos mais jovens das ruas, afeta toda uma cadeia, que vai da economia até a cultura. Para entender sobre esse desaparecimento dos jovens, eu fui até a Rua Mamede Simões, localizada no Bairro de Santo Amaro, nas proximidades do Parque 13 de Maio.
Com a falta de segurança do Centro do Recife, a rua que abriga seis bares se apoia em promessas do Recentro e no projeto de pedestrianização, anunciado pela Prefeitura do Recife em dezembro de 2023. O projeto proíbe a passagem de veículos na via e torna a Mamede exclusiva para pedestres, mas até agora não foi executado.
No caminho, o pensamento era de que iria me deparar com a rua vazia. No entanto, a surpresa veio com as muitas cadeiras de plástico com pessoas sentadas. Ver jovens adultos e pessoas da terceira idade não era o que eu imaginava. Até porque nas vezes em que fui à Mamede, tinha encontrado apenas alguns gatos pingados.

Pensei: só por que eu quero falar do abandono da boemia, o pessoal voltou a ser boêmio. No entanto, prossegui com a pauta e ainda no começo da rua, encontrei um rapaz sentado sozinho, tomando caldinho de peixe e uma cerveja. Pedi licença, sentei na mesma mesa e nós dois conversamos. Descobri então que o seu nome é Vinícius Silva e que ele morava em Natal (RN), mas por causa de trabalho veio parar na capital pernambucana.
Desde que chegou no Recife, há cerca de três anos, passou a frequentar a noite da cidade, que segundo ele, tem uma cena diferente: de sair à noite, ir para bares e conhecer pessoas. A Mamede Simões virou um dos seus pontos preferidos. No entanto, ele detalha que o pessoal trata a rua como um local esquecido: que existe, mas não é como antes. "Eu imagino o quanto que era algum tempo atrás, mas ainda guarda um charme. Eu acho que as pessoas ainda vêm, tá ligado?", ressalta.

Adentrando mais na Rua Mamede Simões, me deparei com outros bares e pessoas. Consequentemente, outras histórias. Ao som de Só Depois do Carnaval, da cantora Lexa, encontrei a Casa de shows "Central das Estrelas". O local é relativamente novo, se comparado com outros estabelecimentos da rua, e tem como proprietário, há mais dois anos, Jango Barros.
"Esse bar quando começou era 'Bar das estrelas', ela hoje se torna 'Central das Estrelas', porque era o Antigo Bar Central. Mantive o nome 'Central das Estrelas' porque é uma cultura", ressalta. "Cada pessoal se lembra do pai, da mãe, da avó. As letras, as músicas, o dizer. Porque cada música da boemia tem um significado: de um amor, de uma paixão. Não tem como você não se emocionar", conclui Jango Barros.
As inspirações para Jango criar essa casa de show veio de duas personalidades que marca presença por meio de fotos no local: Elza Show, artista transformista que nos deixou em 2024, e a atriz e modelo norte-americana Marilyn Monroe. Para ele, a boemia enfrenta sim dificuldades, mas o que pode mudar esse cenário são políticas públicas voltadas aos comerciantes e frequentadores da noite da cidade. Na sua opinião, "a força do jovem" pode ajudar a mudar esse cenário.

Já no final da rua, encontrei Kauan Augusto, de 21 anos. Ele tem o costume de vivenciar a noite da cidade e aponta que sente que população tem se afastado do Centro do Recife, "onde tem a boemia clássica". Para ele, jovens da sua idade terminam por preferir locais mais gourmetizados, isto é, restaurantes e pontos que estão na moda.
"Eu gosto do ambiente. Normalmente, a boemia acontece de sexta a domingo, é o momento que a gente tem para relaxar, se encontrar com os amigos, tomar uma cerveja, conversar, conhecer gente e isso é o que alimenta um pouco a gente. De sair da rotina, de movimentar a cabeça e fazer alguma coisa."
A questão é que a boemia não morreu. Talvez esteja crise, mas resistindo. Sobre o Recife, eu diria que uma das mais fortes experiências da cidade é a vida noturna. Apesar das dificuldades, as pessoas vão ao centro, sentam nas cadeiras de plástico e conversam com estranhos. Porque no final das contas não é só "beber", mas se permitir viver experiências. Vale a pena sair de casa.

CONFIRA A REPORTAGEM EM ÁUDIO: https://open.spotify.com/episode/6H3WdCWg5GPtgJw9yIZlSi?si=qA-Be6KUQtSua_YMutrDMA
Recife dos anos 50
Na literatura, os curiosos de plantão podem conhecer o boêmio Recife dos 50 por meio do livro “Rosselline amou a pensão de Dona Bombom”. A obra do jornalista e Imortal da Academia Pernambucana de Letras, Cícero Belmar, conta a história de quando o diretor italiano Roberto Rosselline vem ao Brasil para gravar um documentário sobre a fome, mas se apaixona pela gastronomia e cultura da Cidade do Recife.

Matéria excepcional! Interessante pensar o quanto a diferença entre gerações impacta tão fortemente nesses movimentos!
Parabéns pela matéria! Sensacional!!!