Recentemente, estive em São Bento do Una, cidade localizada no Agreste pernambucano há mais de 200 km de Recife. Conhecida como a Capital do Ovo, por conta das muitas granjas com criação de galinha, a cidade carrega belezas que fogem do senso comum: casas simples, prédios com poucos andares, construções antigas e um povo com várias histórias para contar. Dentre os locais onde pode-se encontrar contadores de história, escolhi a feira da cidade.

Localizada logo no Centro Urbano de São Bento, nas proximidades da Paróquia Senhor Bom Jesus dos Pobres Aflitos, a feira acontece no final de semana e fecha duas vias da cidade. De certa forma, quem nunca frequentou comércio de rua, talvez estranhe a movimentação. Muitas vozes, pessoas anunciando os seus trabalhos e os transeuntes perguntando "quanto é isso aqui moço(a)?". A realidade é que lá se encontra quase tudo. Desde de roupas, sapatos, chapéus e cintos, à utensílios de cozinha, plantas, frutas, legumes entre outros.
A experiência é certa e consegue encantar até quem é de fora. Esse é o caso da estudante de jornalismo, Camila Dechamps, de 21 anos, que pela primeira vez visitava a Cidade de São Bento de Una. Ela, que é moradora de Boa Viagem, se encontrava na cidade por conta da formatura de uma amiga.

"Eu nunca estive numa cidade do interior parecida com São Bento. Já estive em Gravatá, Pesqueira, Caruaru, mas acho que todas são um pouco maiores, né? Pelo menos, considerando a área urbana. Eu diria que São Bento tem um ar muito fresco e de curiosidade. Acho que a cidade tem um brilho diferente. São casas baixas, isso chama atenção para o horizonte que você olha. Você vê muito mais céu do que em cidades grandes", destaca.
Camila Dechamps também aponta que a feira da cidade é um "ponto estratégico" tanto para moradores, quanto para as pessoas que vem de fora. Além disso, ela chama atenção para a variedade de produtos, que, na grande maioria das vezes, são mais baratos do que os encontrados na Capital Pernambucana.
"Acho que uma coisa muito interessante de se observar sobre cidades, como São Bento, são as marcas do tempo que passam diferentes, talvez. Você vê carros mais antigos e isso é muito interessante. Você sai de um ambiente completamente urbano como Recife, como a Região Metropolitana, e você vai para uma cidade que remete a uma imagem diferente de 'cidade', uma estrutura diferente de cidade. E não é mais cidade ou menos cidade: é uma cidade diferente.", conclui.

A feira é o local em que o povo é mostrado. Ela representa as dificuldades de se comercializar, mas também exibe a alegria de ser feliz no simples. Andando mais um pouco, adentrando agora na parte de alimentos, encontramos banana, maça, cebola, batata, tomate, coentro e tudo o que se tem direito. Fora isso, também é possível encontrar o bom e velho caldo-de-cana com pastel (quem não gosta?).
No entanto, num olhar mais atento, foi possível localizar um comerciante que vendia "todo tipo de doce" (palavras dele): desde jaca, banana, leite a quatro tipos de quebra-queixo, mariola entre outros. Seu nome é Gustavo Brito e ele não é de São Bento, e sim de Belo Jardim, cidade vizinha. Ele ressalta que a venda de doces já é tradição:

"Começou com o meu avô em Belo Jardim, faz acho que uns 60 anos ou mais essa tradição de família. Aí foi passando de geração em geração. Eu que estou levando, porque os outros da família não tiveram coragem. É uma boa freguesia, que desde antigamente o meu avô já tinha freguês, eu conquistei mais ainda, aí mil maravilhas.", ressalta.
Gustavo Brito destaca ainda que os clientes não vêm apenas de São Bento, mas também de outros estados, como Rio de Janeiro e Santo Catarina. Para Gustavo, que traz um comércio de mais de 50 anos de história, "o que é bom mesmo para você representar o seu trabalho, é um bom atendimento, uma mercadoria de qualidade e que todo mundo fique contente, goste e volte para vir comprar de novo".

Apesar da movimentação, é importante destacar que a Cidade de São Bento do Una e grande parte do Agreste pernambucano vem sofrendo com problemas de chuva. Esse período de estiagem afeta as plantações, ocasionando com que produtores tenham que buscar alimentos no Ceasa para então comercializar. De acordo com a meteorologista da Apac, Edvania Santos, a previsão de chuvas na região para os meses de julho, agosto e setembro é de que seja abaixo da média.
Outro problema que vem incomodando o são-bentense é o racionamento das águas. De acordo com Vanda Alves, auxiliar de cozinha, muitos bairros da cidade sofrem com a falta d'água. "A Compesa fala que a água fica nos sítios. O racionamento é muito difícil. Vai completar três meses agora que não chega água de jeito nenhum na torneira", destaca. Apesar dessa dificuldade, ela se encontrava com sorriso no rosto e ajudando uma amiga no comércio.

Transposição do Rio São Francisco
No dia três de julho, o Governo do Estado de Pernambuco inaugurou a Adutora do Agreste junto de uma nova estação de Tratamento de Água (ETA) na Cidade de São Bento do Una. As obras prometem abastecer locais da área urbana da cidade com as águas do Rio São Francisco e reduzir os problemas causados pelo racionamento. O investimento é de R$ 79 milhões. Em um vídeo publicado recentemente no Instagram, a Deputada Estadual, Débora Almeida (PSD), comemora o funcionamento da ETA e aponta que brevemente todas as casas do município devem receber água tratada. Confira o vídeo.
Texto muito bem escrito! Sou de São Bento, então é muito interessante ver a perspectiva de alguém de fora. Aliás, muito importante a discussão sobre o racionamento de das águas! Ansiosa pelos próximos textos <3