A visitante

por Cícero Belmar (Colunista) | ago 30, 2026 | Gente da gente | 0 comentários

Nossa Senhora da Conceição. (Foto: Edson Holanda/PCR)

No dia em que minha mãe fez 96 anos, Nossa Senhora da Conceição dormiu lá em casa. Na chegada da santa, minha mãe, agarrada ao terço, disse alguma coisa em voz baixa como quem fala de coração para coração. Fiquei curioso; e um pouco mais tarde lhe perguntei o que a senhora falou naquele momento?

“Eu disse que ela já sabia os costumes da casa, que era sempre bem-vinda, porque tudo aqui é dela”.

Uma intimidade construída em longos anos de orações, pedidos e retornos de gratidão. Dia 10 de maio de 2025, um sábado, véspera do Dia das Mães, o relógio marcava exatamente 19h44 quando Nossa Senhora da Conceição chegou. Já se sabia, com bastante antecedência, da estadia da santa; e a visita era aguardada com ansiedade pela minha mãe.

A passagem da santa pelas casas, no mês de maio, já se tornou uma tradição. Sempre à noite, um grupo de pessoas sai em procissão, conduzindo o andor, peregrinando pelas ruas de Bodocó, minha cidade, no alto Sertão pernambucano. Lá, diz-se assim: “Hoje, a família vai receber Nossa Senhora em casa”. Nunca se diz que vai receber a imagem de Nossa senhora.

O roteiro das visitas, feito para cumprir curta estadia, é definido dias antes e, coincidentemente, a chegada da santa em nossa casa ocorreu justamente no dia do aniversário de mamãe.

A felicidade era tão grande que ela não teve, sequer, as dores da hérnia que a incomoda diariamente. A dor é apenas intrusa num dia especial.

A casa precisaria estar impecável para que a santa fosse recebida, segundo as orientações expressas rigorosamente pela minha mãe. O chão deveria estar limpíssimo, os móveis lustrando à base de óleo de peroba, toalhas brancas nas mesas, os jarros com flores colhidas no quintal, o ar com cheiro e frescor do campo. Não haveria desculpas para a ausência dos filhos. Assim foi feito porque ninguém era louco para desobedecer.

Durante a estadia da santa, o sentimento de minha mãe era de que Nossa Senhora da Conceição estava de fato presente. Ela tinha discernimento de que materialmente era uma imagem que estava ali, mas os sentimentos são lentes de grau para longe e perto do coração.

Uma imagem com representação simbólica, mas que mexia com suas emoções e suas verdades. Enquanto a santa esteve em casa, minha mãe rezou o terço para ela. Era o olhar de quem dialoga com franqueza, como quem diz você também é mãe e mulher, sabe do que estou falando.

No fundo, é inútil discordar das verdades de minha mãe, afinal a compreensão das coisas, das situações, depende muito mais do envolvimento que temos com o assunto do que essa realidade literal e subjetiva que vivemos. A imagem da santa lhe ajudava a realizar o que já era de concreto na sua esperança.

Quando chegou a hora de a santa ser levada para outra casa, minha mãe estava plena e grata. “Nunca pensei numa felicidade tão grande quando completasse 96 anos”. A fé é uma energia que sintonizamos numa frequência particular. É como uma nota musical que vai se juntando a outras e termina compondo uma música poderosa: cantando, as pessoas seguiram, levando o andor para regar outras alegrias.

Cícero Belmar, jornalista e Imortal da Academia Pernambucana de Letras.


Pesquisar

As mais acessadas

Cícero Belmar (Colunista)

Cícero Belmar (Colunista)

0 Comentários

Enviar um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *