
Descobri, aos 22 anos de idade, o que tentaram me dizer ao longo da minha vida: que havia algo errado comigo. A diferença é que, dessa vez, ninguém falou “errado”. O psiquiatra recitou os termos “autista” e “TDAH”, e, pela primeira vez, as palavras não vieram como um empurrão, mas como uma mão estendida.
No colégio, eu era a menina que “podia mais, mas não queria”. A professora dizia isso com uma pena visível, como quem se entristecia pelo meu potencial negligenciado. Eu não queria? Eu queria tanto que doía. Queria entender por que, às vezes, o barulho do ar-condicionado parecia soar mais alto que a voz do professor, e logo, acabava se tornando mais importante que a aula. Queria saber por que eu vivia esquecendo a tarefa na mochila, mesmo tendo passado a noite inteira pensando nela, angustiada. Queria aprender a responder “bom dia” sem calcular o tom, o volume, o momento exato. Como se cada interação fosse uma prova oral surpresa, uma que no final eu sempre reprovava.
Eu copiava as pessoas. Observava meninas que riam na hora certa, que sabiam quando interromper e quando fingir interesse. Era uma atriz sem roteiro, improvisando numa peça que todo mundo já tinha ensaiado. E, ainda assim, eu errava a marca, falava na hora errada, ria no silêncio errado. Depois vinha o rótulo: esquisita, distraída, dramática. Eu colecionava essas palavras como quem junta figurinhas repetidas, sem saber para que serviam, mas sabendo que não eram boas. Ainda assim, aparentemente me definiam, então as abraçava como uma parte de mim.
As provas eram um espetáculo à parte. Eu sabia o conteúdo, mas não sabia fazer prova. Meu corpo até colaborava, mas minha cabeça escapava em silêncio, como quem sai de um cômodo sem fazer barulho. Eu me perdia entre uma questão e outra, esquecia o que tinha acabado de ler, voltava a frase como se fosse a primeira vez. Às vezes eu entregava a folha incompleta não por pressa, mas por cansaço mesmo. Um cansaço estranho, de tentar segurar algo que não parava na minha mão. Em outras provas, eu travava numa pergunta simples, como se as palavras estivessem ali, mas não se conectassem, e eu ficasse sozinha diante de algo que fazia sentido para todos, menos para mim.
Em casa, diziam que era preguiça. Na escola, falta de dedicação. Eu comecei a acreditar. É curioso como a gente aprende a se traduzir na língua dos outros, mesmo quando ela não nos descreve. Virei minha própria legenda equivocada, diagnosticada com depressão severa e ansiedade moderada aos 14, 15 anos. Não me lembro bem, mas lembro dos remédios e da sensação de vazio que hoje, quase não me assombram mais, felizmente.
Na vida adulta, alguém disse que se sentia como eu, mas sem sequer ter me conhecido. Como é possível? Me perguntei, até então desconhecendo os termos que explicavam que meu cérebro não era um erro de digitação, mas sim outro texto. Que eu não era incapaz de prestar atenção, mas incapaz de filtrar o que vinha antes dela. Que eu não era dramática, mas me sobrecarregava e o fim do mundo parecia real. Que não era desinteresse, era um tipo de interesse que não cabia nos moldes da aula de 50 minutos... Que vinha atrás de outra aula de 50 minutos... Que vinha atrás de outra aula de 50 minutos...
Enfim. Chorei de alívio e de luto. Alívio por finalmente ter um nome que não me diminuía. Luto pela menina que passou anos tentando caber numa cadeira apertada demais para o que ela era. Pensei em todas as vezes em que eu me pedi para ser “menos eu”, e mais "os outros", sem entender o motivo. E em como ninguém percebeu que esse pedido era impossível de atender sem me apagar no processo.
Hoje, eu ainda brigo com o relógio, ainda me sobrecarrego com o peso do mundo na pele, ainda me distraio com o barulho do ar-condicionado. Mas também me encontro. Eu aprendi a pedir silêncio sem pedir desculpa, a anotar tudo sem vergonha. Aprendi que rotina não é prisão, é mapa. E que, às vezes, ser literal é só uma outra forma de honestidade.
Se eu pudesse voltar ao colégio, não pediria notas melhores. Pediria compreensão. Alguém que olhasse para mim e dissesse: “não é desleixo, é diferença”. Talvez não mudasse tudo. Mas teria mudado o suficiente para que eu não passasse tanto tempo tentando consertar o que, na verdade, só precisava ser visto, entendido e aceito.
No fim, descobri tarde, mas descobri. E para mim, isso basta.
0 Comentários