Era uma vez um sonho que parecia improvável

por Vitor Alexandre | ago 19, 2026 | Gente da gente | 0 comentários

Charles do Bronx volta a lutar no Brasil após cinco anos — Foto: Jeff Bottari/Zuffa LLC

Eu cresci vendo Charles Oliveira lutando. Vi suas derrotas, suas viradas e o tempo em que ainda não era campeão, naquele dia em Brasília, quando finalizou Kevin Lee em um ginásio vazio, em silêncio de pandemia, sem aplausos. Naquele momento, pensei: talvez eu nunca veja isso de perto.

Mas o tempo passou, como passa para quem espera. Em 2021, Charles se tornou campeão e virou um dos nomes mais importantes do UFC. E justamente por isso, passou a lutar nos palcos mais lucrativos — Estados Unidos, Abu Dhabi — deixando o Brasil cada vez mais distante do seu caminho. O UFC até voltava ao país de vez em quando, mas faltava aquela energia rara, aquela luta capaz de mexer com o brasileiro e transformar um evento comum num acontecimento.

Até que num dia aparentemente comum, 23 de setembro de 2025, veio o anúncio, quase inacreditável e com certeza inesperado: Charles Oliveira lutaria no Brasil.

Cinco anos depois. No Rio de Janeiro. O sonho deixou de ser abstrato. Não deu tempo de pensar: ingresso comprado no segundo dia em que foi aberto, passagem garantida. Era agora ou nunca. Era um “bate e volta” que valia mais que muitas viagens longas.

Cheguei ao Rio na sexta à noite. No dia seguinte, antes mesmo dos portões abrirem, eu já estava na fila. Dois minutos de caminhada do hotel até a arena, mas parecia uma vida inteira. E foi ali, antes de qualquer início de luta, que eu percebi que a noite já tinha começado. As preliminares ainda nem tinham dado o primeiro passo oficial, mas o clima já era de festa.

O povo chegava aos poucos, em ondas meio desorganizadas, ocupando os espaços com calma, sem pressa, como se ninguém quisesse perder nenhuma experiência. Fiquei caminhando sem rumo, só olhando. Gente com camisa do Charles, grupos de amigos rindo alto, outros mais quietos, só observando. Tinha quem parecia estar ali pela primeira vez e quem claramente já conhecia o ritual, mas todo mundo carregava a mesma coisa no olhar: expectativa.

Em um canto mais cheio, uma movimentação diferente chamou atenção. Cheguei mais perto e vi Gilbert Burns e Diego Lopes, lutadores do UFC, cercados por uma multidão. Filas enormes se formavam, gente segurando celular, boné, camisa, qualquer coisa que pudesse virar lembrança.

Era curioso pensar que, para muita gente, aquele já era o momento mais importante da noite. Pensei em entrar na fila, dei até um passo, talvez dois, mas bastou olhar melhor para entender que era longa demais, lenta demais. Continuei andando e percebi o som aumentando aos poucos, conversas se misturando, risadas, passos, algazarra. A arena, que antes era só estrutura, ia ganhando vida, como se tudo estivesse se aquecendo para o que viria.

As lutas começaram e junto com elas a ansiedade crescia. Até que chegou o momento. O adversário entrou primeiro, Mateusz Gamrot, sob vaias que não eram pessoais, eram parte do show. Toda história precisa de um outro lado. Então as luzes se apagaram. E começou a tocar “O Hino”, nome da música de entrada do Charles. Uma música que virou canto coletivo, um coro de milhares de vozes que não ensaiaram, mas sabiam exatamente como cantar.

Charles entrou. E não era mais só ele. Era tudo o que ele carregava e quem ele representava.

A luta começou sem susto. Em pé, golpes limpos; no chão, controle absoluto. No primeiro round, já nas costas, já mostrando o caminho. Quem entende sabia: aquilo estava sendo construído. No segundo round, ele fez o que quis. Trocou porrada como quem gosta, como quem se diverte, e então decidiu — porque parecia decisão — que era hora de acabar. Grudou, se levantou, derrubou seu adversário. Fácil demais para parecer real. Costas de novo, mata-leão encaixado, o silêncio de um segundo antes do inevitável. E as três tapinhas. Fim. Explosão.

Eu abracei desconhecidos como se fossem amigos de infância. Ninguém perguntou nome, ninguém precisou. Era gol em final de Copa, descarga coletiva, prova de que às vezes o sonho não só acontece, ele acontece do jeito certo. Vitória por finalização, do maior finalizador da história da organização, no Brasil, diante de todos nós.

Na saída, ninguém queria ir embora de verdade. Todo mundo cantando “sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor” e o nome do Charles ecoando sem parar, como se repetir fosse uma forma de prolongar o momento.

Era uma vez uma noite que não acabou quando terminou a luta, um ídolo que deixou de ser só imagem e virou uma pessoa real. Nem sempre os milagres são grandes. Às vezes, vêm em forma de luta, de viagem rápida, de abraço em estranho. Em forma de finalização, e com três tapinhas.

Vitor Alves (estudante de jornalismo)

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