A cultura do São João virou apenas produto de consumo e mercado?

por Ernesto Pereira | jun 18, 2026 | Politicagem | 1 comentário

Apresentação de Alok em Caruaru. Foto: Isabela Ferro.

O mês de junho dá início a uma das festas mais aguardadas pelo nordestino: o São João. Este período de festejos carrega um misto de cultura, que integra raízes, música, dança, culinária, religião entre outros elementos. No dia 13, estive em Caruaru, conhecida como a Capital do Forró e berço do São João aqui no Nordeste. A data comemora o Dia de Santo Antônio, conhecido como "santo casamenteiro". As festas na cidade, no entanto, não começaram neste mês, e sim no dia 31 de maio, e seguem até o dia 27 de junho. Ainda assim, o que me surpreendeu não foi apenas a beleza da cidade, e sim a programação: Zé Vaqueiro, Bell Marques e Alok.

Quando se pensa em Caruaru, o que fica cravado na memória do Pernambucano são duas coisas: São João e o forró. Esta cidade, localizada no Agreste do estado, abriga pouco mais de 400 mil habitantes, e é o ponto turístico certo, quando se pensa nas festividades do mês de junho. Segundo a Fundação de Cultura de Caruaru (FCC), a expectativa é que em 2026 quatro milhões de pessoas passem pela Capital do Forró, e que a movimentação econômica da cidade seja por volta de R$ 760 milhões. Informações do G1.

Apesar disso, é inegável que de uns tempos para cá, os shows da cidade têm abraçado cada vez mais artistas e ritmos musicais para além do forró. Em 12 de junho (Dia dos Namorados), por exemplo, aconteceu o show de Roberto Carlos, que se apresentou no Pátio de Eventos Luiz Lua Gonzaga, principal palco da festa. Para além deste show, outros artistas já se apresentaram em Caruaru no Pátio de Eventos. Entre eles: Priscila Senna, Pablo, Raphaela Santos, Nattan, Léo Santana, Belo, Zé Vaqueiro, Bell Marques, Alok entre outros. Caruaru conta atualmente com 27 polos culturais, que trazem desde o forró pé de serra a apresentações de quadrilhas, audiovisual entre outras (Confira programação).

Para o historiador Braulio Moura, a festa de Caruaru ganhou uma fama nacional e internacional, por conta das características do forró, da feira de artesanato e do título "Capital do Forró". De acordo com ele, os festejos cresceram tanto a ponto de torna-se um fenômeno de massa, do mesmo jeito que outros São Joãos, como é o caso do de Campina Grande, na Paraíba (PB).

Historiador Braulio Moura. Foto: divulgação

"E quando ela se torna esse fenômeno cultural de massa, que ganha a atenção do Brasil e do mundo, ela acaba ganhando também um tempo maior de festa. Elas criam uma disputa de título por um maior São João do mundo, e dentro dessa ideia foi se estendendo a festa para mais dias: de 15 dias, 20 dias, às vezes até mais de um mês. E dentro dessa ideia de ter no mínimo 30 dias festas, começou-se a trazer atrações também que pudessem preencher essa agenda", aponta Braulio Moura.

A questão é que dentro dessa proposta de colocar grandes nomes da música para tocar na cidade e atrair mais gente, vieram atrações que não condizem com a proposta da festa, "que é o caso de trazer o sertanejo do centro oeste, de trazer o funk, a música eletrônica de Alok, causando esse impacto. Então de um lado você atrai gente, de atenção e de mídia, porque divulga, e por outro lado você acaba relegando, você acaba deixando de lado tudo aquilo o que construiu e que fez esta festa ser o que ela é hoje, que é o forró", conclui o historiador.

Para o historiador Braulio Moura, é possível sim ter um São João multicultural, como é o caso do Carnaval de Recife, que chama público, traz cantores e ritmos diversos, mas sem esquecer a tradição. Ainda assim, de acordo com ele, o problema maior não é o fato de ter Alok ou do São João de Caruaru se tornar um festival de música, e sim ter super cachês para algumas atrações e sub-cachês para outras que, por vezes, fazem parte da cultura da cidade.

Shows de Karynna Spinelli, Mariene de Castro, Sorriso Maroto e Pixote marcaram
a noite no palco principal. (Foto: Edson Holanda/PCR)

Em uma reportagem feita pelo G1, no dia 10 de junho, é mostrado quanto foi pago a artistas que se apresentam no Pátio do Forró Luiz Lua Gonzaga. Entre alguns dos mais altos, estão: Wesley Safadão (R$ 1,5 milhão); Projeto À Vontade - com Zezo, Raí Saia Rodada e Luan Estilizado (R$ 990 mil); Nattan (R$ 900 mil); Alok (R$ 850 mil); Belo, Bell Marques e Xand Avião (ambos com R$ 800 mil).

Este assunto tem ganhado palco principalmente nas redes socias, que cantores de forró têm demonstrado frustração sobre cachê e também a postura do público, que por vezes deixa de lado o forró raiz pelo sertanejo. Esse foi o caso da cantora Walkyria Santos e do forrozeiro Flávio José. Confira o vídeo de Felipe Fernandes sobre o assunto.

Apesar disso tudo, uma coisa é certa: o São João é uma das festas mais tradicionais e aguardadas pelo Nordestino. Ele movimenta também toda uma cadeia econômica, que vai desde a venda de bandeirinhas e roupas xadrez, ao aumento de clientes em bares e restaurantes, turistas no estado e até mesmo patrocínio. No dia 13, inclusive, teve o jogo do Brasil x Marrocos (1x1), que foi transmitido em um telão do palco. Durante os intervalos, pessoas subiam ao palco para divulgar patrocinadores e entre eles a bet.

Apresentação de quadrilha junina, no Pátio Luiz Lua Gonzaga, durante intervalo
do jogo entre Brasil e Marrocos. Foto: Ernesto Pereira

"O que acontece no São João de Carurau é que não é uma dinâmica cultural do forró. Não é que o forró se transformou, é o evento que se transformou por sinal de tempo, por pressão de patrocínio, por pressão de marca e por efeito de cultura de massa, para atrair cada vez mais gente. É natural a mudança na cultura, mas é também importante a manutenção da referência, da raiz, porque é isso o que vai dizer quem nós somos, quem fomos e o que é que a gente quer ser daqui para frente." - Braulio Moura.

Para além de apenas uma festividade

A História do São João não se restringe apenas a sanfona, triângulo e zabumba, mas também a um misto de tradições religiosas e uma cultura viva e presente na sociedade. A festa homenageia três santos de junho: Santo Antônio (13), São João Batista (24) e São Pedro (29). As celebrações tem origem da cultura portuguesa e foram trazidas pelos colonizadores para o Brasil.

Santo Antônio. Imagem: Arquidiocese de Belo horizonte

Para além de "santo casamenteiro", Santo Antônio é conhecido também como padroeiro dos desafortunados, dos viajantes, das mães, dos pescadores e dos casais. Aqui no Brasil, são feitas as "simpatias de castigo" para casar e muitos colocam o pobre do santo até de cabeça para baixo. Fernando de Bulhões, como foi batizado, nasceu em 1195 em Portugal, na cidade de Lisboa (inclusive é padroeiro de lá). Ele passou grande parte da vida em Pádua, na Itália, e fazia parte da ordem franciscana. Nas festas juninas, é tradição é que fiéis vão à Igreja levar pães ao santo para que sejam distribuídos aos pobres.

São João Batista. Imagem: Paróquia Santa Teresinha

São João Batista era filho de Isabel e de Zacarias e primo de Jesus Cristo. Ele desempenha grande importância no Novo Testamento, vindo primeiro que Jesus ao mundo e anunciando a vinda e a salvação trazida pelo Messias. O nome "batista" tem relação com o fato dele sair em missão para pregar e batizar a população. Inclusive, foi ele quem batizou Jesus Cristo. São João é considerado o último dos profetas e dá nome as festividades juninas. Uma curiosidade é que vem de São João a tradição de acender fogueiras durante os festejos juninos. Este rito antigamente servia para comunicar alguma notícia importante, como é o caso de um nascimento.

São Pedro. Reprodução: Dol

Simão, como era conhecido antes de ser batizado por Cristo como "Pedro", foi apóstolo de Jesus e um dos seus primeiros discípulos. Pedro significa pedra, porque foi sobre sua fé, que Cristo edificaria a Igreja. Ele foi o primeiro papa e junto a São Paulo, fundou a Santa Sé de Roma. Antes de ser discípulo de Jesus, ele era pescador e pescava possivelmente nas proximidades do Mar da Galileia. Nas festividades juninas, o seu simbolismo está presente nas chuvas, as confiadas pelos nordestinos. Ele encerra o ciclo junino e segundo a tradição, é obrigação dos viúvos e das viúvas acender uma fogueira na porta de casa durante a noite do dia 29.

O que as pessoas pensam do São João de Caruaru?

No rimo da música e nos passos do forró, o São João é uma festa que junta milhares de pessoas em Pernambuco e principalmente na cidade de Caruaru. Mas fica a pergunta: o que as pessoas pensam sobre esta data? Será que ela perdeu a tradição e o simbolismo?

Silvia Ferro e Alessandra Ferro

Para avicultora Silvia Ferro, os cantores que tocam forró no Nordeste devem ser mais valorizados do que aqueles que vem de fora e não cantam o ritmo. Ela acredita que o palco principal da festa deveria ser preenchido por artista da terra, como, por exemplo, Flávio José, Santa e Jorge de Altinho. De acordo com Silvia, seria mais benéfico para a cultura da cidade se fosse criado um festival a parte, que aí sim trouxessem esses artistas. Mesmo com essa ressalva, destaca que a festa de 2026 tem sido muito boa.

A empresária Alessandra Ferro, irmã de Silvia, partilha de um pensamento semelhante, de que esses grandes artistas (de fora do Nordeste) não têm nada haver com o forró pé de serra raiz da cidade. Trazer essas pessoas, inclusive, tira o brilho dos artistas da terra que esperam o ano inteiro para tocar no São João. Na sua concepção, se não tomarem providências, é capaz da festa perder a identidade. "Ou muda isso daí, ou em pouquíssimo tempo as futuras gerações não vão saber o que é o forró autêntico", destaca.

Vinicius Queiroz

O advogado Vinicius Queiroz, de 23 anos, morador de Caruaru, ressalta que o São João da cidade vem numa crescente desde o fim da Pandemia. Para ele, o fato de ter começado a ter o São João na Roça, que acaba tendo quase três meses de festa, é muito bom para o turismo e consequentemente a economia. Vinicius acredita que atrações de fora conseguem estourar bolhas, como a de localidade e idade, atraindo pessoas que normalmente não iriam para a cidade apenas pelo forró. Consequentemente, isso ajudaria a apresentar a cidade de Caruaru, as raízes e a cultura.

Kayane França

A estudante de odontologia, Kayane França, de 23 anos, aponta que a festa de São João em Caruaru é muito mais aguardada do que o Carnaval. Ela também é moradora da cidade e destaca que ao decorrer dos anos só vem aumentando mais artistas que não tocam forró na festa. Para ela é possível sim colocar artistas de fora para cantar outros ritmos, mas sem que estes tomem o local de quem canta a cultura. Porque quando isso acontece, a tradição é afetada e apaga a imagem do forró no São João, porque "o São João tem que ser forró", conclui.

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Ernesto Pereira

Ernesto Pereira

Estudante de Jornalismo e apaixonado pela comunicação. Gosto de escrever sobre pessoas, lugares e coisas que a gente só percebe quando desacelera.

1 Comentário

  1. Renata

    Matéria show, muito bom saber o pensamento de várias pessoas e que eles acabam girando em torno de um só, tem que ter o forró e o pessoal da terra! Matéria excelente!

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