
A profissão de sapateiro não nasceu hoje. Na verdade, acredito que ela é bem mais antiga do que podemos imaginar, justamente porque os calçados surgem da necessidade de as pessoas protegerem os pés na hora de andar. Nas civilizações antigas, como no Egito, Grécia e Roma, já existiam artesões voltados para criação e manutenção desses calçados. No entanto, foi só vários séculos depois que veio a nomenclatura: sapateiro.
Esta profissão, que desempenha um papel fundamental na sociedade, está cada vez mais escassa. Um dos motivos pode ser o fato de que muitos sapateiros e sapateiras aprendiam com os pais ou familiares. Com a revolução tecnológica e crescimento nas oportunidades de estudo, talvez as pessoas foram deixando de lado este ramo.
Ainda assim, existem pessoas que concertam sapatos e que dão continuidade a este trabalho milenar. Este é o caso de Evaldo Monteiro, de 70 anos, e que exerce a profissão desde os 15. Ele trabalha perto da casa da minha avó, no Centro de São Lourenço da Mata, em um ponto depois do Pátio da Feira.
“Comecei sendo ajudante, depois aprendi a profissão e fui trabalhar em Recife. Trabalhei em fábrica de bolsa, eu trabalhei em fábrica de calçado, umbocade de coisa”, destaca Evaldo em entrevista. “A maioria da minha vida eu trabalhei como auxiliar de modernista. O modernista fazia o modelo, eu botava na cartolina, cortava a peça, fazia a peça e o montador fazia o sapato.”
O ponto que ele se encontra agora, no entanto, nem sempre foi dele. Na verdade, era do seu amigo, Armando José, que há mais de 40 anos trabalhava consertando calçados naquele local. Seu Armando, começou fabricando sapatos, inclusive para quem tinha alguma deficiência nos pés. No entanto, ele foi perdendo funcionário e decidiu consertar apenas o que já tinha sido fabricado.

Como Evaldo Monteiro não sabia consertar sapatos velhos, ele foi para Casa Amarela aprender a fazer conserto e passou a vir ajudar o amigo, quando ele folgava do trabalho no Recife. Há alguns anos, no entanto, Seu Armando faleceu e o ponto ia ficar parado. Então Evaldo passou a abrir o comércio e trabalhar sozinho, e isso já faz cinco anos. “E eu dei continuidade ao legado que o meu colega deixou.” Entre risadas e brincadeiras, ele lembra do amigo de profissão como alguém que trabalhava e fazia as coisas com orgulho.
Quando eu fui conversar com Seu Evaldo, não sabia direito como dizer que queria entrevistá-lo. Então, eu fiz o seguinte: peguei um sapato antigo meu, levei para ele e perguntei se ele podia botar o fiador. No meio do trabalho, disse que fazia jornalismo e perguntei se ele podia me dar uma entrevista. Ele topou. Coloquei uma lapela na sua camisa e fomos conversando, rindo e partilhando vivências.
Quando o seu trabalho terminou, a nossa entrevista já estava se encerrando. Perguntei então quanto tinha ficado. Ele me respondeu que não precisava pagar. A conversa já tinha sido o bastante. Acho que o que mais marcou na entrevista foi quando eu perguntei se ele gostava do que fazia.
“Rapaz, eu e meu colega que foi Armando, a gente amava o que fazia, sabe?”. Querido leitor, não vou mentir, eu não entendi. Tantas pessoas reclamam dos seus trabalhos, que não são valorizadas e aquele homem trabalhando com a mesma coisa durante 55 anos tinha carinho pelo que fazia?

Bem, se de um lado temos um sapateiro experiente, com mais de 50 anos de trabalho nas costas, do outro temos um sapateiro da nova geração, mas que não deixa nada a desejar. Esse é Wilken Ramos, de 26 anos e que trabalha há seis anos nessa profissão.
Eu terminei encontrando Wilken por acaso. Eu tinha ido na rua comprar um cadarço para Seu Evaldo colocar no meu sapato e terminei conversando uma vendedora. Aproveitei e perguntei se ela conhecia algum sapateiro em São Lourenço da Mata. Ela então me indicou Wilken Ramos.
O ponto dele fica perto da linha do trem, atrás do Pátio da feira e do lado da “Lanchonete o Rei do Caldo de Cana”. Era um local que eu nunca tinha visitado, se comparado com o de Seu Evaldo. No entanto o espanto veio por eu ter sido recepcionado por uma pessoa nova. Quem diria que existiam sapateiros jovens?
Ele aprendeu o ofício com a ex-sogra, que tinha aprendido a arte da sapataria com pai e já era sapateira há cerca de 40 anos. “Acho que há seis anos atrás, eu tava desempregado, visse? Aí conheci minha ex-sogra, que ela que me inspirou. Antes disso, eu já tinha o intuito de trabalhar para mim mesmo. Ela perguntou: quer conhecer a profissão, quer trabalhar? Eu disse: quero.”
Abraçando a oportunidade, ele se fez. Em duas semanas já estava craque na arte, e fazia as coisas de forma rápida e precisa, o que impressionou até a sua mentora. Quando ela decidiu que estava na hora de descansar da profissão e viajou para Santa Catarina, deixou o ponto com ele.

A cliente de Wilken Ramos não se restringe apenas a pessoas de São Lourenço Mata, mas também quem vem de fora da cidade e precisa de um serviço ligeiro. Com Wilken, não tem esse negócio de pegar amanhã. Ele ajeita na hora.
De acordo tanto com ele, quanto com Evaldo Monteiro, a indústria calçadista diminuiu o uso das colas e hoje utiliza mais da prensa. "O que mais a gente vê é sapato de marca aqui. É Nike, é Adidas, é Umbro. Tudinho o original. E o pessoal pede para costurar por quê? justamente a costura é o reforço, reforço que garante", explica Wilken.
"A gente tem uma boa contribuição para dar ajuda a população. Porque querendo ou não, você tá com um sapato novinho, ás vezes solta o solado e questão de uma cola, uma costura, você dura mais dois ou três anos", detalha. De certa forma, a profissão de sapateiro não é tão lembrada dentro da sociedade, apenas em uma emergência ou perto de um casamento.
Ainda assim, é inegável dizer que ela é fundamental para a sociedade. Da antiga geração de sapateiros à nova, acho que eu comecei a entender do porquê seu Evaldo amar o que faz. A lição que eu aprendi com os sapateiros é que a felicidade não é uma coisa material. Acho que você não precisa comprar outro sapato, talvez apenas concertá-lo.
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