O Severino que não quis ter uma vida Severina​

por Ernesto Pereira | abr 24, 2026 | Tá na Rua | 1 comentário

A história que vai ser contada não é a de nenhum retirante. Provavelmente o que lembre o livro de João Cabral de Melo Neto, Morte e vida Severina, seja apenas esse nome: Severino. Como tantos Severinos, este aqui não é tão diferente. Afinal, ele também sentiu a dificuldade na pele e as várias injustiças da vida. Diferenciá-lo de tantos outros talvez seja até um pouco difícil, por isso a sua avó o apelidou de “Preto”.

A obra clássica do poeta pernambucano retrata as dificuldades de Severino, um retirante que foge da seca até chegar à cidade do Recife. Os leitores são apresentados à "morte Severina", que é "a morte que se morre de velhice antes do trinta, de emboscada antes dos vinte, e de fome um pouco por dia."

Nascido no dia cinco de abril de 1966, Severino Vieira dos Santos Neto percebeu desde cedo que a vida nem sempre é justa. Sendo o irmão mais velho dentre os seus 13 irmãos e irmãs, Preto já tinha que ajudar em casa, ainda muito novo. Quando questionado sobre com que idade havia começado a trabalhar, ele responde que desde cedo ajudava o pai, Severino Vieira dos Santos Filho, levando o almoço e descarregando areia nos rios.

“Com sete anos de idade, eu levava almoço para ele [o pai]. Minha mãe fazia aquelas marmitinhas de alumínio, três, quatro: um ia farinha, outra ia feijão, outro ia arroz. Aí quando ele ia almoçar, eu digo ‘pode deixar aí, que eu descarrego”, destaca.

Depois de muito se trabalhar para os outros, o pai de Preto conseguiu comprar três bancos de madeira e começar o seu próprio negócio. Eles ficavam na feira de São Lourenço da Mata e quem passasse em frente a já finada “Padaria Estação do Trem”, poderia ver um lugar que vendia quase tudo de utensílios para vaqueiros. “Meu pai tinha de tudo: Arreio de cavalo de toda a qualidade”, ressalta.

Quando completou 18 anos, Severino percebeu que estava na hora de procurar novos ares, saindo, então, da casa dos pais. Ele já tinha planos de construir uma família, mas primeiro era necessário que tivesse um emprego. Então ele parte em uma jornada à procura de trabalho, até que é contratado pela Fiat Lux, uma Fábrica de Fósforo que ficava em São Lourenço da Mata.

Preto ficou cerca de oito meses trabalhando na parte de matéria prima química, fazendo a massa para produzir aquelas cabeças dos fósforos até que, por um infortúnio do destino, o seu pai morre por causa de uma crise de baço, onde as varizes estouraram. “Foi muito sangue pela boca. Muito sangue.” Ele chegou a ser internado, mas não resistiu. 

Severino tinha duas escolhas: ou continuar na empresa que trabalhava, ou voltar a ajudar a sua família no empreendimento do pai. Ele, então, escolheu sair da fábrica. No entanto, a mãe de Preto não queria que o filho perdesse o emprego e a estabilidade. “Ela disse que ia manter o negócio, ia manter o banco sozinha. Então foi aquele tempo que eu tinha que voltar para a Fiat Lux de novo”, destaca.

Fábrica da Fiat Lux. Imagem: IBGE

A Fábrica de Fósforos da Fiat Lux, localizada em São Lourenço da Mata, foi inaugurada no ano de 1963. Nela chegaram a ser produzidas três marcas de fósforo: Pinheiro, Jangada e Olho, que era, inclusive, a mais conhecida. Em 1973, a fábrica já empregava 320 funcionários e produzia em torno de 35.000 unidades de fósforos por mês. Ela inaugurou uma nova era de automação na indústria Nordestina.

Preto agora tinha a missão de voltar para o antigo emprego, mas como? A sorte é que ele era uma pessoa empenhada e tinha um conhecido que trabalhava na Fábrica, então bastou uma conversa, que no outro dia ele já podia voltar ao antigo emprego.

O que marca bastante a sua trajetória na Fiat Lux, é que foi a primeira vez que ele trabalhou com carteira assinada. O que explica muito o porquê de sua mãe, dona Maria Lindolce dos Santos, ter feito tanta questão para que ele voltasse a trabalhar na fábrica. Afinal, trabalhar “fichado” não era para todo mundo. 

Ele volta para os serviços na Fiat Lux, mas diferentemente da primeira vez, em que pediu para sair, dessa vez foi ele que foi mandado embora. Por causa de uma redução de quadro, Severino e mais 60 funcionários foram demitidos. Como a vida prega diversas peças, Preto foi chamado novamente para trabalhar, saindo apenas quando a empresa viesse a fechar nos anos 90.

“A primeira vez que eu trabalhei na Fiat Lux, que eu trabalhei três vezes. A primeira vez eu trabalhei oito meses, a segunda eu trabalhei três anos e pouco, e no final, que ela fechou, eu trabalhei cinco anos”, ressalta.

O problema é que depois que a fábrica de fósforos fechou, centenas de trabalhadores ficaram desempregados, como foi o caso dele. Foi nessa hora que Severino viu-se encurralado, pois ele já estava casado com Maria da Luz da Conceição e tinha quatro filhas para criar. 

De tanta procura por um lugar para trabalhar, eis que surge uma luz: um colega dele que vendia pipoca, ficou sabendo que um rapaz estava vendendo uma carrocinha de cachorro-quente. Vendo essa oportunidade, Preto não pensou duas vezes e percebeu que era hora de empreender, assim como o seu pai fez um dia.

Mas não é porque ele voltou a trabalhar que as coisas começaram a dar certo de um instante para o outro. Diferentemente de seu pai, Preto não tinha o jeito de vendedor. Enquanto Severino Filho sabia vender, Severino Neto sabia apenas sorrir e trabalhar no pesado

“Meu pai me ensinou mais a trabalhar do que estudar. Eu tive pouco estudo, até a terceira série. De lá para cá foi só trabalho”, pontua. No início, era a sua esposa quem fazia os bolos e coxinhas. No entanto, quando Preto passou a cozinhar, as pessoas começaram a procurar ele, não o contrário. 

Ele aprendeu a fazer uma comida diferente. Filas enormes eram formadas na Praça Timulião Maranhão para provar o então pão de charque, a coxinha de charque e tudo o que era produzido naquela carrocinha de cachorro-quente. Quando menos esperado, de desconhecido, Severino ficou conhecido por quase todos que frequentavam o Centro de São Lourenço da Mata.

Os seus principais clientes eram os alunos do Colégio Agrícola Dom Agostinho Ikas (CODAI). “Era 80 salgados que eu vendia. Eu vendia cachorro-quente, eu vendia na faixa de uns 200 pães por dia.” As pessoas saiam do trabalho e iam logo comer em “Preto Lanches”, porque além de terem uma boa conversa com o dono da carrocinha, “o tempero de Preto igual não há”, como afirmado por Mônica, uma ex-cliente. 

“Você chegava na carroça de Preto com dinheiro ou sem dinheiro, você comia. Não tinha esse negócio. Se você chegasse e dissesse ‘Preto, eu tô com fome e tô sem dinheiro’, comia”, ressalta Rafaela, uma amiga de Severino há mais de 17 anos. Só que de tanto dar comida, e as pessoas não pagarem, ele quase faliu. Chegou um tempo em que faltou dinheiro para comprar até o pão, tendo, então, que recorrer a um agiota. 

Severino trabalhou 20 anos com comida e ressalta que “20 anos não são 20 dias. É muita coisa.” Mas a pergunta que ficou é: por que ele parou de trabalhar na carrocinha de cachorro-quente? Se vendia tanto, por que não continuar? A questão é que ele só começou a trabalhar pela necessidade. Afinal, o comércio era muito difícil e ele enfrentou muitos altos e baixos naquela carrocinha. No entanto, foi de lá que ele tirou não somente o sustento, mas também o estudo das suas filhas. Todas se formaram no ensino médio.

Quando as meninas cresceram e terminaram o colégio, ele parou de vender. Hoje, Preto trabalha como faz tudo: é encanador, pintor, pedreiro e tudo o que for preciso. O seu objetivo foi sempre dar aquilo que não teve para a sua família. Sendo um avô, ele tem muito orgulho dos seus 11 netos e sempre mostra a cidade que tão bem conhece. A herança que ele deixa é a vontade de jamais se render a uma vida Severina.

O Severino que não quis ter uma vida Severina

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Ernesto Pereira

Ernesto Pereira

Estudante de Jornalismo e apaixonado pela comunicação. Gosto de escrever sobre pessoas, lugares e coisas que a gente só percebe quando desacelera.

1 Comentário

  1. José Martins

    Muito bom o conteúdo. Diferente e original. Esperando as próximas publicações.

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